Dieta Planetária

1) Como você vê a dieta para salvar o planeta? Ela é balanceada? Com essas limitações, teremos deficiências nutricionais?

 O trabalho em questão realizado pelos pesquisadores (publicado na Lancet) ressalta a degradação do planeta devido à produção de alimentos, e ainda aponta o consumo de industrializados, açúcar, grãos refinados e carne como alimentos não saudáveis, responsáveis pelo surgimento de diversas doenças crônicas não transmissíveis.

O principal objetivo do estudo é mostrar a importância de uma alimentação saudável, que beneficie a saúde humana e o planeta. Outra problemática abordada no estudo é que os alimentos saudáveis precisam estar acessíveis a todos e bem distribuídos.

Cinco estratégias são apresentadas como possíveis soluções, onde os autores ressaltam que é necessária vontade política:

– Buscar o comprometimento nacional e internacional para dietas saudáveis;
– intensificar de forma sustentável a produção de alimentos, gerando uma produção de alta qualidade;
– governança forte e coordenada da terra e dos oceanos;
– pelo menos reduzir pela metade a perda e o desperdício de alimentos, de acordo com os ODS globais.

Dentro do contexto da proteção ambiental, os pesquisadores destacam importantes fatores que impactam o meio ambiente, graças a atual produção e consumo de alimentos:

– Emissão de gases que agravam o efeito estufa e o aquecimento global: CO2, metano e óxido nitroso;
– Desperdício de alimentos;
– Grande utilização de água (ressalto a altíssima quantidade utilizada para a criação e abatimento de animais);
– Desmatamento;
– Poluição;
– Diminuição da biodiversidade; extinção

Os pesquisadores também defendem a dieta dizendo que pode parecer inviável e extrema, mas que, no entanto, essa alimentação proposta pode incluir dietas veganas ou dietas onde há consumo de quantidades modestas de alimentos de origem animal, sendo estabelecida como tradição em várias regiões. Citam como exemplo a dieta mediterrânea, semelhante a dieta do Creta em meados do século XX, onde era baixa em carne vermelha (ingestão de frango e carne vermelha totalizavam em média 36g/dia), e alta em gorduras (em torno de 40% da dieta), principalmente em azeite. Continuam dizendo que em outras dietas tradicionais (Indonésia, México, Índia, China e África Ocidental) também incluem pouca carne vermelha, sendo mais consumida em ocasiões especiais.

Avaliando a proposta da dieta, ela é muito saudável justamente por ser rica em alimentos de origem vegetal, como as hortaliças e frutas, que são primordiais fornecedoras de vitaminas, minerais e compostos bioativos, responsáveis por promover o equilíbrio de todas as reações químicas em nosso organismo, indispensáveis para a qualidade de vida e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. Entretanto, não devemos padronizar as gramaturas de cada grupo alimentar para todos os indivíduos, visto que cada um de nós possui sua individualidade bioquímica, e a necessidade de ingestão alimentar não é igual para todos. A padronização pode levar à escassez ou excesso de nutrientes.

Vejo como um pensamento sustentável, preocupado não apenas com o planeta, como também com a saúde dos indivíduos. Concordo com a exposição da ideia, entretanto, é um desafio grande devido a necessidade de engajamento da população, dos produtores e dos políticos. Minha única crítica seria a padronização quantitativa dos grupos alimentares.

2) Ela se aplica a todo mundo? Como ficariam os atletas, por exemplo?

 
Do ponto de vista qualitativo, provavelmente sim. Se as pessoas se adaptariam ou não, é uma questão de cada um. Já quantitativamente, é necessária a individualização.

Os atletas, assim como qualquer indivíduo, não podem se beneficiar de uma dieta quantitativamente padronizada. O que determinará as quantidades, é o objetivo atual de acordo com o momento em que o atleta se encontra (pré, durante ou pós competição) e a modalidade praticada.

 

Como a dieta padroniza gramaturas de alimentos, consequentemente a ingestão calórica seria aproximada para todos os indivíduos, sem levar em consideração estilo de vida, atividade física, idade e sexo. E não é isso o que a ciência nos diz, devemos equilibrar o planejamento alimentar de acordo com as necessidades de cada um.

Cabe ressaltar que seriam necessárias políticas públicas, afim de prevenir carências nutricionais, como as de zinco e vitamina B12. Os demais micronutrientes podem ser contemplados na dieta, principalmente se combinados de forma correta na alimentação. Por exemplo: alta ingestão de folhosos e outros vegetais verdes escuros como fonte de ferro vegetal, que se combinados a alimentos com vitamina C (morango, limão, laranja), melhoram a absorção deste, prevenindo a anemia ferropriva.

De forma geral, a dieta planetária preconiza tudo o que a ciência vem nos mostrando ao longos dos anos: devemos comer comida de verdade!

Para constatar os fatos do que afirmei acima acerca de carências nutricionais, realizei um planejamento alimentar minunciosamente baseado na dieta da saúde planetária, respeitando todas as gramaturas de acordo com os grupos alimentares.

 

Mulher, 53 anos, altura: 1,63m, 60kg, com IMC: 22,6kg/m² (peso ideal – eutrofia)

CAFÉ DA MANHÃ
Batata baroa (50g) + Mamão papaia (60g) + Farelo de aveia (30g) + Ovo cozido (14g)
ALMOÇO
Brócolis, espinafre, couve e abóbora (50g cada) + Quinoa (100g) + Lentilha (45g) + Morango (30g)
LANCHE DA TARDE
Abacate (70g) + Aveia (30g) + Nozes pecan sem casca (25g)
JANTARJiló, Chicória, Couve e Cenoura crua (25g cada) + Arroz integral (70g) + Ervilha em vagem (30g) + Carne bovina (14g) + Peixe espada assado (28g) + Laranja lima (40g)

 

A totalização de calorias deste planejamento foi de 1113,7kcal, o que demonstra claramente que o valor de 2.500kcal declarados como base para a dieta, são inviáveis de serem atingidos devido à grande restrição de alimentos. Observou-se ainda uma baixa quantidade de proteínas (0,8g/kg corporal), o que significa que está no limítrofe inferior de uma dieta considerada normo proteica. O grande problema é que não há muita proteína, e estas não são de origem animal, o que indiscutivelmente faz com que possa ocorrer a deficiência proteica. Não quero me referir que uma dieta com este perfil qualitativo não possa substituir as carnes, mas sim que, as quantidades padronizadas não são o suficientes para dar conta da demanda. Para um atleta, torna-se completamente inviável, pois estes necessitam de planejamentos de proteína com em torno de 1,2-2g/kg corporal de proteína diária (podendo esta necessidade ser mais aumentada ainda).

No exemplo utilizado acima, esta paciente fictícia encontra-se em seu peso ideal, e com a quantidade de calorias ofertadas, com certeza emagreceria muito, e ao perpetuar esta padronização, não há dúvidas de que poderia (e provavelmente iria) se desnutrir em algum momento, caso permanecesse obtendo energia e nutrientes somente através da ingestão destes alimentos, sem levar em consideração as suplementações.

Agora imagine, como padronizar esta mesma dieta, com quantidades de calorias que não iriam variar muito mais do que isso (haveria variação de acordo com a escolha dos alimentos, pois uns possuem mais carboidratos, proteínas e gorduras do que outros) para todas as pessoas do mundo?

3) Se tivermos deficiências nutricionais, quais seriam os principais impactos? Energia? Pele? Cabelo? …
Na análise do planejamento acima, observou-se escassez dos seguintes micronutrientes:

Cálcio
Oferecido na dieta: 356,8mg/dia
Recomendação: 1.200mg/dia
Consequências da deficiência:  fraqueza nos ossos, osteoporose, sensibilidade nos dentes e palpitações cardíacas, formigamento nas mãos, nos pés e no rosto, depressão, falta de memória;

Vitamina B12
Oferecido na dieta: 0,86mcg/dia
Recomendação: 2,4mcg/dia
Consequências da carência: anemia megaloblástica, aumento do risco de doenças cardiovasculares, fraqueza muscular, depressão, perda de memória, falta de energia, cansaço, dor de cabeça, queda de cabelo;

Vitamina B1
 
Oferecido na dieta: 1,31mg/dia
Recomendação: 1,1mg/dia
Obs: atingiu-se as recomendações, mas qualquer pequena variação na ingestão diária poderia levar a falta
Consequências da carência: indigestão e constipação, peso e fraqueza nas pernas, pressão arterial elevada.

Vitamina B2
Oferecido na dieta:
0,57mg/dia
Recomendação: 1,2mg/dia
Consequências da carência:
inflamação e quebra tissular, alterações visuais (perda de acuidade), fotofobia e lacrimejamento.

Vitamina B6
Oferecido na dieta: 0,74mg/dia
Recomendação: 1,5mg/dia
Consequências da carência:
fraqueza, insônia, queilose, glossite, estomatite, irritabilidade, depressão, demência, anemia.

Vitamina B9
Oferecido na dieta: 117mg/dia
Recomendação: 400mg/dia
Consequências da carência:
anemia megaloblástica (cansaço, fadiga, dor de cabeça), aftas, cabelos brancos, inchaço na língua, aumento do risco de doenças cardiovasculares.

Vitamina D
Oferecido na dieta:
0,21mcg/dia
Recomendação: 10mcg/dia
Consequências de carência:
osteoporose, raquitismo, doenças cardiovasculares, artrite, diabetes, depressão, câncer.

Vitamina E
Oferecido na dieta: 2,58mg/dia
Recomendação: 15mg/dia
Consequências da carência:
disfunções neurológicas, perda de sensibilidade, atividade plaquetária anormal, ataxia (perda de controle muscular em movimentos voluntários, como andar, pegar objetos)

Zinco
Oferecido na dieta: 8,2mg/dia
Recomendação: 8mg/dia
Obs: apesar de atender a recomendação, está muito próximo do limítrofe inferior das recomendações. Além disso, cabe ressaltar que o zinco proveniente desta dieta é majoritariamente de alimentos vegetais, o que não confere uma adequada biodisponibilidade do mesmo devido a presença das fibras e de fitatos, que são fatores anti nutricionais naturais dos alimentos, principalmente quando crus.

Consequências da deficiência: crescimento reduzido, perda de massa muscular, cicatrização reduzida, queda de cabelo, lesões cutâneas, queda de imunidade e redução do apetite.

4) Caso ache a dieta ruim para o organismo, poderia haver um meio termo para ser bom para o corpo e para o planeta? Como seria?

Para que seja bom para o corpo e o planeta, concordo com a redução na ingestão de produtos de origem animal, sobretudo das carnes, justamente pelo que foi exposto acima, envolvendo o gigantesco impacto ambiental. Além disso, sabemos que os gados são alimentados com rações contendo agrotóxicos e tratados com muitos antibióticos, o que não é nada benéfico para a saúde destes animais e de quem os consome. Claro que os antibióticos são importantes para que estes animais não estejam doentes, mas precisamos saber as consequências para nossa saúde.

Portanto, não adianta estimularmos o consumo de alimentos de origem vegetal em detrimento da redução dos de origem animal, e não nos preocuparmos com os agrotóxicos que também poluem, geram impactos ambientais e nos predispõem a doenças crônicas não transmissíveis, como o diabetes e doenças cardiovasculares. Um ponto positivo é que esta também é uma preocupação do estudo.

Os alimentos industrializados e não orgânicos devem ser evitados ao máximo, pois há consenso muito bem estabelecido pela ciência dos danos causados à saúde humana, como alterações de tireóide, trato gastrointestinal, obesidade e até mesmo influencia no desenvolvimento de tumores malígnos. Os orgânicos são tão importantes quanto a redução da criação de animais e o consumo de carnes.

Creio que o equilíbrio seja o ideal, pois seria impossível vivermos em um mundo onde todos são veganos ou todos são onívoros.